Como Usar Inteligência Artificial na Pesquisa Acadêmica com Ética



São duas da manhã, o prazo da banca está batendo na porta e você abre o ChatGPT só para "dar uma força" na introdução. Até aí, nada de errado. O problema é que boa parte dos estudantes brasileiros não sabe exatamente onde termina o apoio legítimo e onde começa o risco de o orientador — ou um software de detecção — marcar o trabalho como má conduta acadêmica.

Em 2026, o uso de inteligência artificial generativa na pesquisa deixou de ser um assunto de zona cinzenta e virou regra escrita. Em março, o CNPq publicou a primeira norma federal brasileira que trata do tema, a Portaria nº 2.664/2026, instituindo uma Política de Integridade na Atividade Científica. Universidades como USP, Unicamp e UFRJ já regulamentam a prática internamente, e editoras internacionais como Elsevier e Oxford exigem declaração explícita de uso em qualquer manuscrito submetido.

Neste post você vai entender o que pode, o que precisa ser declarado por escrito e como manter suas citações dentro das normas ABNT mais recentes — sem correr o risco de uma acusação de plágio por causa de uma referência que a própria IA inventou.

IA colaboradora ou substituta? O impacto no pensamento crítico

A relação entre você e a ferramenta deveria ser sempre de colaboração, nunca de substituição. Pedir para a IA organizar um cronograma de leitura ou sugerir uma estrutura de tópicos economiza um tempo que você não tem sobrando. Delegar a escrita inteira de um capítulo ou a interpretação dos seus próprios dados é outra história: é aí que o pensamento crítico — a própria razão de existir de um TCC — começa a ser terceirizado.

Diretrizes recentes voltadas ao ensino superior brasileiro são diretas nesse ponto: o uso da IA deve ser ocasião para desenvolver o raciocínio, não para reduzi-lo. Questionar as respostas da ferramenta, checar fontes e comparar perspectivas são habilidades que o uso responsável de IA deveria estimular, não apagar.

Alucinações: quando a IA inventa uma citação que não existe

Um dos riscos mais citados por especialistas em integridade acadêmica é a chamada "alucinação": o momento em que a IA generativa cria, com total confiança, um autor, um título de livro ou um DOI que simplesmente não existem. O texto sai bem escrito, a referência parece plausível — e é justamente por isso que ela engana tanto orientadores quanto os próprios estudantes que não conferem a fonte antes de colar no trabalho.

Apresentar uma referência fabricada em um TCC, dissertação ou artigo não é um deslize de formatação: é uma infração grave de integridade científica, com consequências que vão da reprovação à anulação do título. A regra de ouro aqui é simples — nunca inclua uma citação sem antes ter aberto o artigo, capítulo ou norma original com os próprios olhos.

Uso permitido x uso arriscado da IA no TCC

Onde a colaboração ajuda e onde ela passa a configurar risco de plágio ou má conduta

✅ Uso permitido (com declaração) 🚫 Uso arriscado
Revisão gramatical e de clareza do próprio texto Escrever parágrafos inteiros da revisão de literatura
Sugestão de estrutura e cronograma de escrita Gerar a análise ou interpretação dos seus dados
Brainstorming de hipóteses e perguntas de pesquisa Copiar citações sem checar a fonte original
Tradução de trechos, com declaração e checagem de fidelidade Omitir o uso da ferramenta no trabalho final

Onde a IA ajuda de verdade — e onde vira risco de plágio

Pensando de forma prática, dá para separar o uso da IA em três frentes bem diferentes: processo, produção e verificação. Cada uma pede um nível diferente de cuidado.

  • Processo (uso tranquilo): organizar ideias, propor um sumário provisório, sugerir perguntas que sua pesquisa ainda não respondeu.
  • Produção (zona de atenção): reescrever trechos que você mesmo escreveu, resumir um artigo que você já leu na íntegra, ajustar o tom de um parágrafo.
  • Verificação (nunca delegue): conferir se uma citação existe de verdade, validar dados e números, revisar a argumentação central do trabalho.

Quanto mais perto você chega da "verificação", mais a responsabilidade é intransferivelmente sua. Nenhuma ferramenta assina o trabalho com você — quem responde pela banca é o pesquisador, não o modelo de linguagem.

Como declarar o uso de IA no TCC (Portaria CNPq nº 2.664/2026)

A Portaria CNPq nº 2.664/2026, publicada em 11 de março de 2026, instituiu a primeira Política de Integridade na Atividade Científica com regras federais específicas sobre inteligência artificial generativa, valendo para bolsistas, proponentes e usuários da Plataforma Lattes. A norma prevê que o pesquisador se responsabilize integralmente por eventuais imprecisões geradas pela ferramenta — ou seja, a IA erra, mas quem paga a conta é quem assina o trabalho.

Mesmo antes dessa portaria, um guia de referência produzido pelos pesquisadores Sampaio, Sabbatini e Limongi já recomendava um modelo de declaração simples, para ser incluído nos agradecimentos ou na metodologia: informar o nome e a versão da ferramenta usada e justificar objetivamente para que ela serviu no processo de escrita. É esse mesmo espírito de transparência que comitês internacionais como o ICMJE e o COPE, e editoras como Elsevier e Oxford, já cobram de qualquer artigo submetido.

4 passos para declarar o uso de IA no seu trabalho

Um roteiro simples para não esquecer nenhum detalhe na hora de formalizar o uso

1. Anote a ferramenta e a versão usada
→
2. Descreva para que ela serviu
→
3. Confirme se o texto final reflete sua autoria
→
4. Inclua a declaração na metodologia ou nos agradecimentos

O que mudou nas normas ABNT: NBR 10520:2023 e NBR 6023

Independentemente de quanto apoio de IA você usou no processo, a citação final continua precisando seguir a ABNT. E aqui vale uma atualização importante: depois de 21 anos sem revisão, a NBR 10520 (citações em documentos) foi atualizada em 2023 para se alinhar à NBR 6023 (referências), que também passou por revisões nos últimos anos.

A mudança mais visível está na indicação de autoria dentro dos parênteses: antes, o sobrenome do autor ia inteiro em letras maiúsculas; agora, apenas a inicial é maiúscula. A norma também esclareceu uma dúvida antiga sobre pontuação, deixando claro que o ponto final encerra a frase, e não a citação em si.

NBR 10520: antes x depois da atualização de 2023

Principal mudança na indicação de autoria dentro dos parênteses

Versão 2002 Versão 2023 (vigente)
(SILVA, 2019, p. 1) (Silva, 2019, p. 1)
Ponto final ambíguo entre frase e citação Ponto final encerra a frase, nunca a citação

Checklist ético antes de entregar o trabalho

  1. Toda citação foi conferida na fonte original, não apenas copiada da resposta da IA?
  2. Você incluiu uma declaração de uso de IA na metodologia ou nos agradecimentos?
  3. As referências seguem a NBR 10520:2023 e a NBR 6023 mais recente, sem letras maiúsculas em excesso?
  4. A análise e as conclusões do trabalho são, de fato, sua interpretação — não um resumo gerado por IA?
  5. Você guardou o histórico de conversas com a ferramenta, caso precise comprovar o processo à banca?

💡 Dica do BiblioCitare: depois de conferir cada referência na fonte original, use o GeradorABNT para formatar tudo já dentro das regras atualizadas da NBR 10520:2023 — maiúscula só na inicial, pontuação correta e sem risco de erro manual na reta final do TCC.

Fontes e referências

  • ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 10520: informação e documentação: citações em documentos: apresentação. Rio de Janeiro, 2023. Disponível em: coc.fiocruz.br.
  • BRASIL. Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Portaria CNPq nº 2.664, de 11 de março de 2026. Institui a Política de Integridade na Atividade Científica do CNPq. Disponível em: eipassei.com.br.
  • SAMPAIO, Rafael Cardoso; SABBATINI, Marcelo; LIMONGI, Ricardo. Diretrizes para o uso ético e responsável da Inteligência Artificial Generativa: um guia prático para pesquisadores. 2024. Disponível em: educapes.capes.gov.br.
  • O PARADOXO da transparência no uso de IA generativa na pesquisa acadêmica. SciELO em Perspectiva, 10 out. 2025. Disponível em: blog.scielo.org.
  • UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO. Pró-reitoria de Pós-graduação e Pesquisa. Inteligência Artificial nas IES no Brasil: diretrizes. Disponível em: pr2.uerj.br.

Formate suas referências já dentro da norma vigente

Chega de conferir manualmente se o sobrenome deveria estar em maiúscula ou não. O GeradorABNT já aplica a NBR 10520:2023 automaticamente, para você focar no que realmente importa: o conteúdo do seu trabalho.

Acessar o BiblioCitare.online agora →

A inteligência artificial veio para ficar e pode, sim, ser uma aliada real na rotina de quem escreve um TCC. Mas a responsabilidade pelo conteúdo, pela veracidade das fontes e pela citação correta continua sendo inteiramente sua. Declare o uso, confira cada referência na origem e deixe a formatação por conta de uma ferramenta confiável — assim seu trabalho fica ético, ágil e pronto para a banca. Se você ainda tem dúvidas sobre como estruturar a introdução do seu TCC considerando esses riscos de IA, vale a pena conferir também o post "Como escrever a introdução do TCC" aqui no blog.

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